por Nícolas Vargas, editor-chefe da Nazco

A Nazco esteve na pré-estreia do documentário “Tropicália”, de Marcelo Machado, a convite da Bossa Nova Films, no evento de lançamento do festival É Tudo Verdade, e o que vi foi um exercício de memória sem charlatanismos revisionistas, sem saudade forçada, sem nostalgia de algo que nunca vai passar.

(se você manja de tropicália, pode pular cinco parágrafos deste texto, logo abaixo)

Tropicalismo nada mais é que antropofagia levada às últimas consequências, mas de forma quase inconsciente, totalmente intuitiva. Um movimento que aconteceu pra valer entre 1967 e 68. Colocava-se no bloquinho, na partitura, na tela e na instalação a inspiração forjada à base de referências múltiplas, não apenas nacionais, mas estadounidenses, européias, latinas e, até, orientais.

Desse caldo, nasceu não apenas uma geração de artistas que mudaria tudo que havia sido visto em termos de música no planeta Terra, mas também gente do naipe de Helio Oiticica, nas artes plásticas, e Gláuber Rocha, no cinema. Pode-se dizer que foi a primeira manifestação global made in Brasil.

"Tropicália", instalação de Hélio Oiticica

"Tropicália", instalação de Hélio Oiticica

A música, porém, era a grande vedete do movimento. Caetano Veloso e Gilberto Gil comandavam, de forma indireta, uma turma formada por Maria Bethania, Gal Costa, Mutantes, Jorge Mautner, o maestro Rogério Duprat, Jorge Ben e Tom Zé, entre outros. E isso fez um barulho estarrecedor, em termos estéticos e sociais.

Infelizmente, não era um momento histórico propício pra se fazer muito barulho. Em 13 de dezembro de 1968 entrou em vigor o Ato Institucional número 5, que basicamente revogava todos os direitos constitucionais dos cidadãos brasileiros, dando início à canalhice assassina conhecida como “linha dura” da nem um pouco saudosa ditadura militar.

Daí em diante, artistas foram encarcerados, torturados e, os mais “sortudos”, exilados. Gil e Caetano foram enxotados de seu próprio país após dois meses de cadeia e quatro de prisão domiciliar. Voltaram em 1972 e desovaram por aqui uma bagagem criativa ainda maior, saudosa, ressentida, de certa forma, e pronta para balançar a música mundial de novo.

(ok, você que manja tudo de tropicália pode voltar a ler aqui)

Tropicália, o filme, é contagiante. Traz depoimentos inéditos (pelo menos para mim) de praticamente todos os artistas citados neste texto, imagens da história sendo construída, de fato, e muita música. Uma surpresa boa é a inexistência de uma gangorra entre as falas de Gil e Caetano quando moleques e, agora, senhores de vastas terras no gigantesco território da MPB. Eles são o foco do filme, e em momento algum o diretor titubeia em deixar isso claro. Os outros personagens são coadjuvantes, mas nunca menores em importância. Têm-se noção do devido tamanho de gente como Mutantes e Gal Costa.


A sensação de que o verdadeiro artista não envelhece fica impressa e é fácil lembrar porque todo mundo busca Caetano Veloso para comentar praticamente qualquer assunto existente no noticiário nacional: ele é o cara mais lúcido do país. E Gilberto Gil, para mim, é o rei do ritmo, meu preferido na música nacional. Sempre emociona e contagia, seja com seu show de volta do exílio (vídeo abaixo), fazendo um acústico na MTV, tocando Luiz Gonzaga e até mesmo com versões tupiniquim de clássicos do Bob Marley.

Dois comentários finais sobre o filme: inspirador e indispensável.