por Nícolas Vargas
Televisão, todo mundo vê, inclusive quem baixa os programas favoritos ou vê em streamings diversos. Se não consome no horário programado pelo canal que produz, o faz no formato e duração delimitados pelo mesmo. Não há como negar, também, que a TV, se não monopoliza o blá, ao menos esgota os demais assuntos debatidos nas redes sociais. Concordas?
Pois bem, anos atrás ouvi em podcasts e debates, bem como em diversos programas dela própria, a TV, que o veículo estava fadado à bancarrota, ao escoamento, ao esvaziamento, pior, ao apocalipse total caso não mudasse sua rota, que ninguém mais tem saco pra programas longos (sim, provavelmente os mesmo profetas que disseram que “ninguém curte texto longo na internet”), que é o cúmulo da resignação esperar dar o horário pra ver o novo episódio do programa que você curte. Hoje essa conversa anda meio esgotada, poucos se dão ao trabalho mala de baixar programa (em qualidade pior que na TV), legenda, sincarzzzzzzzzz, e geral continua vendo TV nos horarinhos previstos e tal e cousa.
Essa geral é menor, a bem da verdade vos digo. Ano passado, na média, apenas 40% dos televisores brasileiros estiveram ligados, números do Datafolha. Hoje em dia um share de 6% segura um programa de TV aberta no ar por mais uma temporada (eu que o diga). 2, 5 pontos de média no Ibope, no sábado à tarde, salvam a pele. Nem sempre foi assim, mas hoje é. E ainda assim, repercurte indiscutivelmente mais que qualquer outro veículo, web inclusa.
O que ouço, quando se debate a relevância da TV é que ela não existe mais como antes, que desde Lost a gente vê uma série de mudanças, sites especialistas numa série, sobras que são publicadas online, quiz, trivia, ARG. Será que é tão diferente assim do que as revistas de editoras associadas e fanzines de fãs que sempre rolaram? Do que os gibis baseados em blockbusters? Do que álbum de figurinhas? É tudo mesmo tão revolucionário? Chegam mais comentários “válidos” nos sites dos programas do que chegavam cartas?
Afinal, onde quero chegar?
Quero falar da minha área: o conteúdo “de linguagem jovem”. Existe uma crise nesse meio aqui no Brasil e quem a nega está sendo engolido sistematicamente. A molecada não é idiota. Não é um blog esperto de um personagem ou apresentador idiota que vai livrar sua pele. Não são “extras” maneiros de um programa desinteressante que vão resolver seus problemas. Não é contratando um roteirista que escreve o que você quer ler que o humorista ruim que vai ao ar toda semana se tornará engraçado. Não é porque você é amigo do divertido diretor do programa, que faz as melhores piadas nas cervejas entre amigos, que esse cara tem a capacidade de divertir geral do “tubo” pra fora.
As pessoas que trabalham com TV, essencialmente com conteúdo de “linguagem jovem”, estão com medo de não parecerem adultas. Trabalharam “a vida toda” pra comandar a parada e agora não conseguem colocar no ar algo que as incomoda, que desafia a lógica do “bom gosto”. O salário sobe e o medo de “perder” o que se alcançou sobe na mesma medida. Não há discussão com chefia, no sentido literal da coisa, ou mesmo “consulta” ao estagiário. Os estagiários, aliás, dão medo. Molecada carreirista é mato hoje em dia. O cara fala em ser roteirista ou diretor, mas não se diverte no set. E o pior é que, depois, ele vai mesmo virar diretor. Estamos fodidos?
Acho que não, pelo menos não agora. Há muito pra ser feito e a multiplicação do conteúdo nacional da TV a cabo é a última oportunidade pra isso. No entanto, o que temos agora é mais gente sem graça falando nada do que algo que preencha o vazio, há uma nulidade “correta” no ar. Esse ponto de virada no humor da MTV, essencialmente, marca esse silêncio, sepulta a primeira etapa de uma conversa com a geração dos 2010, sustentada pelo amadorismo, pelo encontro quase casual de talentos, pela imprevisibilidade, que levou o caldo que faz a vida mais interessante pra tela que fica na sua sala.
Mas creio numa retomada quase imediata, e agora em mais canais que exibem programação jovem. Acho que mais dia, menos dia, e torço pra ser no máximo até março de 2013, nêgo vai sacar que o valor perdido está no amadorismo do “ser jovem”. Ser amador é fazer por amor, ao pé da letra. É coração na ponta da chuteira. Fazer muito com pouco não é necessariamente fazer barato ou do jeito que der, mas planejar todas as etapas e, no mínimo, botar no ar um programa que você assistiria.
Humor técnico não é humor, é técnica. Você ri mesmo do programa de humor que coloca no ar? Música não é matéria de escola, pra você dar aula sobre isso. Você veria um cara chamando clipes e ensinando quem é Bob Dylan? Será mesmo? E se visse, acredita mesmo que lembraria uma linha do que estão falando cinco minutos depois? Não dá mesmo pra virar isso no avesso? O problema é mesmo a música que se apresenta? A lógica do rádio é eficiente na TV?
Tem que se questionar mais, pirar e fazer, mesmo que você tenha que aprovar um powerpoint ou um keynote disso com seu chefe. Se vira, como um adolescente faria. Aliás, deveria fazer.










