por Nícolas Vargas
Eu sei que ele está apaixonado. O caixa do mercadinho dos chinas ali da Pompéia. A chinesinha aparentemente chegou ao Brasil há algumas semanas, fala pouco português e usa minissaia. Lê um jornal chinês. Ele aparentemente vem de alguma extremo da cidade. Zona Norte. Zona Leste. Algum desses lugares onde a Rota está matando por você jogar bola, ainda hoje, com a molecada com quem estudou na escola.
Semana passada, enquanto ele passava no leitor digital as garrafas d’água e o Ades de abacaxi que eu tava comprando, reparei como encarava de olho franzido a cena do vendedor de bebidas tentando ensinar umas palavras em português pra ela. Um cara desses que termina o expediente e ajuda a secar a cachaça do boteco mais próximo de casa, tudo pra não chegar e ter que encarar a cilada familiar em que se meteu. Isso, quando não dá uma passada no puteiro antes de tomar a saideira.
A menina parece ser filha da dona, uma mulher que fala português como a imitação caricatural de um oriental genérico feita por um humorista ruim, desses que tem aos montes hoje em dia. Desta forma, portanto, a paixão do caixa seria proibida. A chefe, chinesa da gema, agiria de forma radical na punição a qualquer tipo de aproximação de sua herdeira. A demissão viria certeira e as parcelas do fogão novo da mãe dele iriam pro ralo. Ou, pior, pro Serasa.
Tudo isso logo agora, que ele cortou o cabelo e passou a usar o dobro de desodorante (e acho que vi um buquezinho de flores no compartimento abaixo do balcão).





















