por Pedro Leite, roteirista do Furo MTV, autor dePorra, Felipe e Minha Pica Por Aí

É típico de quem não tem mais o que fazer discutir sobre contradições cosmológicas e erros de continuismo em séries de televisão; o prazer que se tira disso é tão grande quanto maior for o número de canais que a pessoa tiver na TV à cabo, ou, em uma relação de proporção indireta, menor for o salário de sua empregada. Entre os temas preferidos dos adeptos de tal prática subcultural está He-man e os mestres do universo, aquele mesmo desenho animado que costumávamos assistir durante um apressado almoço antes de irmos para o colégio aprender a torturar emocionalmente uns aos outros e receber ordens supra parentais de professoras com penteados duvidosos. Em nossa ânsia pelas promessas de violência física e reafirmação ritualística do status quo religiosamente cumpridas pelo desenhos em todos os seus episódios exibidos anacronicamente e intercalados por gincanas de meninos versus meninas, que nos inebriavam a ponto de esquecermos todos nossos tabus culinários que povoavam todo o espectro nutricional, deixávamos de perceber o modelo filosófico/comportamental que nos era enfiado goela abaixo juntamente com croquetes sortidos de banana.

É de praxe que, anos depois, depois de pararmos de mijar nas calças e achar a Cláudia Raia gostosa, percebamos que He-man continha subtextos alegóricos bastante óbvios que tratavam de reforçar preconceitos e mentalidades etnocêntricas e racistas no público do Xou da Xuxa, sabidamente manso e ávido por ser pisoteado por Paquitas secundárias e realizar pactos irreversíveis com Lúcifer, o senhor das trevas. He-man, o heroi loiro com uma cruz no peito, luta para salvar o povo pobre das maldades de esqueleto, o vilão de turbante (não deixe que os fatos destruam seu modelo interpretativo).  Deveríamos todos torcer para He-man pois ele personificava tudo que há de correto no mundo: é branco, cristão e nobre, ao passo que esqueleto vive dentro de um buraco, é pobre e de esquerda. Sua derrota diária tinha a função de nos certificar que a vitória de He-man era um sinal que ele era um dos escolhidos por Deus. Tal interpretação, ainda que esteja correta em linhas gerais, oferece somente um esboço da ideologia por trás deHe-man, e acaba por apontar para conclusões precipitadas e simplórias. Na verdade, He-man antecipou um mundo politicamente unilateral e reconstituiu a lógica da dominação para melhor se adequar ao mundo da razão técnica.

O príncipe e Dick Cheney

He-man, assim como a maioria dos desenhos animados, parte de um mundo perfeitamente maniqueísta; somos apresentados logo de cara aos herois (Adam, mentor, feiticeira, e Teela) e aos vilões filhos da puta (Esqueleto, Maligna, Mandíbula e Eike Batista) e não nos é dada a opção de interferir nesta escolha. He-man é o alter ego de Adam, príncipe de eternia e pessoa física. É para defender sua identidade e resolver suas contradições que He-man luta, bate, arrebenta e bota pra fuder. Seria errado, portanto, observar o comportamento e a prática de He-man para tentar entender o desenho em um nível mais profundo. Observemos Adam; plenamente satisfeito com sua vida de privilégios que apenas uma monarquia absolutista pode proporcionar, ele desfruta de uma vida repleta dos luxos e superfluosidades sem nem ao menos sentir o peso das responsabilidades do poder e da espada de Dâmocles sobre sua cabeça e ombros largos de Zélia Duncan. Eternia é um reino, um Estado legitimado pelo carisma e pela tradição de seu Rei, o pai de Adam cujo nome eu não lembro e nem vou procurar na Wikipedia. É uma sociedade moderna, no sentido que é composta por burocratas meritocráticos e tecnocratas bigodudos dispostos em uma hierarquia institucional de orgulhar Samuel Huntington. Os traços primitivos de nossa sociedade (a solidariedade mecânica e as formas primitivas de classificação) foram eliminados de Eternia, um mundo técnico e desencantado. Em suma, eternia é como a Rede Globo; o nepotismo e a pederastia são leis, mas o povo adora.

O mundo do esqueleto, por outro lado, é mostrado como uma sociedade fundalmentalmente primitiva (Não há divisão social do trabalho, não há poder organizado).  O paganismo, personificado pelo crânio de bode que serve de cajado mágico da alegria para Esqueleto e de onde ele solta raios que tem de inofensivos tudo que tem de imprecisos, remonta a culturas arcaicas, adeptas do animismo, período associado analogamente à primeira infância narcisista por Freud. O pensamento mágico provém de uma crença na onipotência do pensamento na qual o mundo esclarecido de Eternia há muito deixou de acreditar. Muito pior do que muçulmano (afinal de contas, uma religião Abraônica), esqueleto é pagão e crê nas forças da natureza e na alma das coisas inanimadas como uma Enya em chamas.

He-man, assim como todo heroi televisivo e linha de bonecos da Grow que se preze, possui inúmeros ajudantes menores e mais feios do que ele. Em uma observação rápida podemos identificar uma característica comum entre todos eles: seus poderes se originam não de preceitos éticos ou destrezas sobrenaturais, mas da racionalidade técnica aplicada à indústria bélica; eles são todos inventores, soldados ou Robocops. Sua vantagem em relação aos seus equivalentes malvados não reside na pureza de seu coração ou em sua temência à Deus, como pode parecer, mas de seu maior avanço tecnológico e social em relação aos primitivos talibãs do bando do Esqueleto. Mentor, pai adotivo (assexuado) de Teela, personifica a tecnocracia de Eternia; seu nome, no original em inglês (Men-at-arms) designa seu posto, e não sua pessoa. Seu trabalho é inventar e construir armas para He-man e seus companheiros. Stratos é um ciborgue meio homem, meio mola cuja vantagem evolutiva e desvantagem social é usada para ajudar He-man a frustrar os planos de Esqueleto. Teela, antes de ser gostosa, é chefe da guarda imperial; sua luta contra as forças do mal não é nada mais do que um emprego.

No rol de capangas de Esqueleto, por outro lado, encontram-se basicamente personificações de clãs totêmicos, denotando indiscutivelmente o caráter, enfim, totêmico do mundo representado pelo vilão: Aquático (peixe), multi-garras (carangueijo), Lagartauro (lagarto), Webster (aranha), Screech (pássaro), Karg (morcego) e Stinkor (Gambá).  Como não poderia deixar de ser, há também entre os vilões exemplos de xenofobia (Jitsu) e mitologias panteístas (Triclops). Dois de seus ajudantes mais próximos, no entanto, escapam a este padrão: Mandíbula tem o papel de mostrar o lado ao mesmo tempo maligno e mal sucedido do avanço científico: como um Frankeinstein, uma Quimera deformada e grotesca, ele demonstra que o homem, ou o Esqueleto, não deve brincar de Deus, ao mesmo tempo que explicita o abismo tecnológico que existe entre os dois mundos. Já Homem-fera é tudo que eternia varreu para baixo do tape da civilização: seus impulsos primitivos de erotismo e destruição servem como alegoria de um mundo regido pela natureza contraposto a um outro que a excluiu em nome da razão.

Sexo e temperamento em Eternia

Assim como todo o resto da cosmologia de He-man, o papel da mulher é bastante diferente no mundo do bem e do mal. Enquanto Maligna rivaliza com Esqueleto em maquiavelismo e levantamento de supino, sendo detentora de poderes mágicos sobrenaturais e única criatura positivamente sexualizada no reino do mal (a ponto de usar batom), no mundo de Eternia há uma cisão obrigatória entre sexo e poder, e o personagem de Maligna encontra sua equivalente em duas personagens diferentes: Teela e Feiticeira. Teela, gostosa, politicamente corretamente bem sucedida é filha de Feiticeira, imaculada, misteriosa e detentora do poder de Greyskull. As pernas de Teela, sempre convidativas a ereções precoces e banhos demorados se mostram submissas ao poder fálico constituido de He-man, que reside justamente nas mãos de feiticeira, mantendo assim o status quo intacto e livre de sutiãs queimados e beijos lésbicos no BBB. Para quem é médio o suficiente para ter lido o Código da vinci (minha desculpa foi uma madrugada presa no aeroporto) a associação clara é a de Maligna com Maria Madalena. Já Com Teela e Feiticeira, a aproximação mais direta é respectivamente com Wanessa Camargo, com seus shows na the week e parcerias com Ja rule, e Sandy e seu totalitarismo meigo de Cambuí.

 

O retorno do totemismo na infância

Falando na Feiticeira, ela é uma das personagens chave para entender o dilema esquizofrênico de He-man/Adam. É a ela que Adam recorre quando quer deixar de ser fraco, impotente e pálido e assumir sua persona bronzeada e fodona cuja espada cresce como uma piroca flamejante rumo ao infinito. O poder de Greyskull é essencialmente tradicional, autóctone, mágico, e sua intromissão em assunto de Estado poderia colocar Adam, cujo rabo se encontra bastante preso com trivialidades e idealizações midiáticas, em perigo. O retorno ao totemismo e ao animismo não pode ser afirmado como salvador da pátria em uma sociedade moderna e burocratizada como Eternia. Assim como acontece conosco, os impulsos destrutivos e eróticos que reprimimos em nome da ciência voltam através de neuroses; no caso, na forma de uma figura mítica e onipotente de He man. Sua filiação com o arcaico e o sobrenatural é escondida como vergonha e sua identidade secreta de personificação dessas impulsos é negada a todo custo. Todo poderio bélco de um reino tecnocrático é irrelevante diante do poder primeiro da magia de transferência, e este segredo que corrói a crença de Adam no iluminismo apenas reforça o poder de sua neurose destrutiva. A figura do Pai de Adam (cujo nome ainda não lembrei) o castra como um superego  que força as manifestações do seu Id selvagem ao campo nem sempre acolhedor da porradaria, seja no esqueleto, em seus capangas ou em travestis na Rua Augusta.

 

Observações sobre um relato autobiográfico de um caso de paranoia flutuante

Assistindo a todas estas manifestações egoicas e ritualísticas de cima  está Gorpo, que, deixando de lado a sutileza metafórica, somos nós. Frágil, inútil e impotente, Gorpo (que, caso você não sacou, é o Corpo sem corpo) serve de alivío cômico aos herois e vilões fantásticos e unidimensionais que habitam Eternia. Seu papel é o de observar, não tomar parte e, ao final de cada episódio, tirar conclusões e lições de moral para ensinar crianças manchadas de feijão o caminho do bem. Seu impulso de significar tudo, fechar cada episódio como um todo harmônico e isolado é a nossa ânsia de sentido e nossa paranoia teleológica. Tudo se justifica: a violência, a destruição da natureza, o horror, a guerra, a mentira e as Paquitas, pois tudo é parte de um sentido superior, legitimado pela vitória do bem diante do mal. Tenham cuidado com estranhos, não mintam para seus pais, não nadem depois do almoço, façam suas lições de casa, acreditem no bem e no amor que ele vai lhes proteger com seus veículos blindados e canhões de grosso calibre pois o mal, além de não ter fé, rei ou lei, baseia todo seu poder balístico em uma caveira de bode. É mais ou menos por aí.