por Nícolas Vargas, editor-chefe da Nazco (texto escrito em meados de 2002, ainda na faculdade, e nunca continuado)
Faltava pouco para entrarmos em campo (na verdade, íamos entrar em quadra, mas considero o “campo” muito mais romântico). Sem dúvida, o time mais bizarro da história do torneio interclasses de futsal da Unidade de Ensino Descentralizada de Cubatão da Escola Técnica Federal de São Paulo (ufa!). A gente suava frio, sem saber ao certo se era efeito da pinga com mel ou do nervosismo. Éramos o segundo time do primeiro ano de Informática Industrial e, sendo assim, os caras bons de bola disputavam o título no primeiro.
Basta ler a escalação da equipe para saber que ninguém ali sabia tratar a pelota com carinho peculiar: Bósnia (um cara que ficou com uma puta cicatriz no olho ao bater com um pedra em num montinho de pólvora de bombinha), Feio (um cara feio), Baygon (louco varrido
e vagabundo profissional), Geléia (flácido), Urina (na época, para que se adquirisse o direito de tomar seu primeiro banho após a educação física, você tinha duas opções: atravessar os três chuveiros com um sabonete entre os glúteos ou ser urinado por toda a fila), Porco (esse apelido era meu, por ser, claro, gordo, e reforçado pelo fato de eu nunca tomar banho depois da
educação física) e Juca (um cara que dava tapões em sua própria cabeça enquanto falava).
A equipe adversária era a principal do primeiro ano de Eletrônica, uma das favoritas do torneio. Sabíamos que, para ter alguma chance de vencer, tínhamos que apostar nossa vida naquela partida. Literalmente, pois nossos adversários daquela tarde pertenciam a uma das classes mais violentas da escola e havíamos feito a rapa (na hora do recreio, juntávamos um grupo afim de invadir a sala vazia de outro curso para pegarmos o que nos interessasse em termos de material técnico, entre lapiseiras, compassos, esquadros, blocos de desenho e borrachas) na sala deles há apenas dois dias, que, naturalmente, nos haviam jurado uma surra.
Chegamos na quadra, que ficava em uma outra escola. O professor já nos aguardava, bem como os adversários, que aparentavam estar se aquecendo há um bom tempo.Haviam torcidas, tanto para nós quanto para os rivais. A rapaziada da nossa classe, olhando de fora, nos passava com o olhar a obrigação moral da vitória. Estávamos fodidos e pessimamente pagos.
Lembro de ter uma vontade incrível de ir embora daquele lugar assim que mirei o chão de concreto da quadra. Tinha certeza de que, ali mesmo, seria desfigurado um rosto bochechudo. Senti um tapa nas costas. Era o Urina:
- Porco, firma o pensamento de que a gente pode! Vamos ganhar essa porra! – juro que eu não punha a menor fé nas palavras do Urina que, aliás, era banco.
O professor chamou, então, todos para o centro da quadra. Resolveu deixar algumas ressalvas antes de apitar o início da partida:
- Sei que vocês não com a cara uns dos outros, mas aqui é futebol. O negócio é jogar bola. Quem partir pra ignorância vai ser expulso do jogo e suspenso da
aula, entenderam?
Fizemos que sim com a cabeça, nos distribuímos pela quadra e foi apitado o início do jogo. Eles saíram com a bola, como bem havia definido o cara ou coroa. De começo, me lembro de ter tomado uma caneta. Juca defendia repetidas bolas e logo me liguei que teria de tomar uma atitude.
Como todo garoto sabe, o cara que toma a primeira caneta vira alvo preferencial de dribles. Todo ataque dos caras passava por mim, que não conseguia reter uma bola sequer. Do banco, Urina e toda a rapaziada da minha classe gritavam para que eu distribuísse porradas. De cabeça quente, aceitei prontamente a sugestão.
CONTINUA …



