por Bruno Ondei, editor-chefe do site da Mix TV e autor do Tem Um Zumbi No Meu Quintal

Você já parou pra pensar qual é a rota mais rápida entre sua casa e a livraria mais próxima? Ou o caminho mais direto entre seu trabalho e o bar? É o tipo de coisa que eu achei que não precisaria perder muito tempo calculando. Mas depois de acontecer o que aconteceu, cálculos assim passaram a significar a diferença entre ser um de nós ou um deles.

É aquela história de todo mundo lembrar onde estava quando derrubaram as Torres Gêmeas ou quando a Lady Gaga morreu. Eu estava na casa da Joana. Minha namorada. Era por volta das 19h de um domingo. A gente tinha acabado de voltar do cinema. Molhados. Não que chovesse, mas “Piratas do Caribe” convertido para 4D promoveu uma verdadeira tormenta dentro da sala.

Sei que parece estupidez, mas fãs de cinema clássico tem que se contentar com essas defasadas salas 4D. Meu primo foi ver “Tron 4” em 6D e nunca mais voltou. Provavelmente está perdido em alguma dimensão paralela mais interessante que essa aqui. Enfim…

Domingo, 19h, Joana e eu molhados. E foi isso. Aconteceu. A notícia só apareceu no dia seguinte. Ou não apareceu. Não tinha TV. Não tinha jornal para baixar. Não tinha internet. Não tinha nada. Um grupo deles atacou um evento de social media. Todos riam e aplaudiam, enquanto um cara era despedaçado no palco. Acharam que era uma espécie de flashmob ou viral.

Bom. De fato, era um viral. Canibalis Virus. O primeiro infectado não foi o primeiro atacado, já que desse não sobrou muita coisa. Os celulares apontados para o palco impediram que os participantes da convenção percebessem o que vinha por trás. Resultado: 48 mortos. 130 desmortos. Zumbis.

Daí em diante os filmes estavam mais ou menos corretos. Isolamento, acerte na cabeça, militares, fim do tráfego aéreo… Foram 5 meses muito difíceis. A Joana virou um deles durante o “Ato pela proteção Zumbi”. Um abraço coletivo de mais ou menos 800 pessoas num grupo 150 de infectados na praça da Sé. Resultado: 950 desmortos.

Show.

A gente não vinha se dando muito bem mesmo. O “zumbi ativismo”, que a Joana abraçou (literalmente, tadinha…), foi popular no começo da crise. Começou motivado pela onda de violência que se abateu sobre os infectados. Como a lei não dizia nada sobre matar quem já estava morto, a caça a zumbis virou uma atividade bastante comum. Especialmente entre jovens bêbados depois da balada. Os jornais mostravam imagens de zumbis queimados, decepados, dilacerados, amassados, explodidos, marretados, baleados e – choque-se com isso agora – estuprados.

O movimento “Zombie 2022″ pretendia arrecadar fundos para proteger os direitos zumbis. Não foi exatamente um sucesso. Especialmente depois do incidente da praça da Sé. Zumbis não queriam ser protegidos ou abraçados. Eles queriam comer cérebros. Os grunhidos de “miooooooolos” já deveria ter deixado isso bem claro.

Antes da fase da piedade, passamos pela fase do pânico. Com a crise confinada nos principais centros urbanos, o movimento de êxodo para o interior causou caos e violência civil. A Batalha de Itu, como ficou conhecida, mostrou que cidades construídas para 100 mil habitantes não podem comportar 4 milhões.

Os moradores da cidade não foram problema para turba. Logo cada casa tinha sido invadida. O quartel do exército, a Igreja, os bares, lojas, a Fazenda e restaurantes. Tudo foi ocupado. A polícia entrou em ação. Um efetivo de 80 mil homens foi mandado para a cidade, com o objetivo de retirar os invasores.

Isso foi feito. Mas os policiais não queriam sair das casas depois. O Exército foi chamado. As cenas que se viam eram dantescas. Fardas cinzas e verdes se digladiavam em praça pública. O resultado foi uma cidade destruída, 20 mil policiais e 18 mil soldados mortos e o completo descrédito da população sobre o poder público.

A terceira fase foi a final. A fase da aceitação. Afinal, a vida tem que continuar, certo? No caso de zumbis, aliás, ela continua mesmo…

O primeiro passo foram ações de educação pública. “Não abrace os zumbis”. “Não alimente os zumbis, pois eles querem comer você”. “Zumbi bom é zumbi morto. De novo.” Essas eram algumas das frases usadas pelo governo nas campanhas na TV. Acontece que, quando se esperava o apocalipse ou algo parecido, dados divulgados pelos órgãos de segurança pública indicavam fatos interessantes.

Em São Paulo, por exemplo, em 2021 – último ano antes da crise – a taxa de homicídios era de 15 por 100 mil habitantes. Em 2023, com a crise já absorvida pela sociedade, o número era de 2 por 100 mil. Crimes ligados a violência como um todo tinham diminuído. Brigas, estupros, bulling, agressões… Os dados todos caíam.

Era como se toda a população tivesse se virado contra um inimigo comum. E mais que isso. Como se a inerente ânsia de violência do ser humano tivesse agora uma decrépita válvula de escape. Apesar de altamente contagiosos e relativamente asquerosos, os zumbis eram presas fáceis para qualquer pessoa com um mínimo de coordenação motora. Com as campanhas do governo incentivando a caça a zumbis, não demorou para que aqueles que necessitavam descarregar as frustações do dia a dia encontrassem seu novo esporte predileto.

Os acidentes envolvendo mordidas e dilaceramentos eram cada vez mais raros. A nova realidade, apesar de sinistra, criou uma nova indústria. Repelentes anti-zumbis, por exemplo, passaram a ser item obrigatório em qualquer mochila ou bolsa. Práticos, duradouros e eficientes. Grades e reforços para portas e janelas, dos mais variados modelos, proliferaram em lojas de material de construção. Assim como as novas blindagens para carros. Não que um zumbi consiga estourar uma janela de um automóvel, mas as pessoas gastam qualquer dinheiro e fazem qualquer coisa em nome da segurança de suas famílias.

Entre os artigos de caça, as espadas acabaram por se tornar o item mais procurado. Elegância e precisão na medida certa na hora de decepar um zumbi. As armas de fogo ainda são de uso restrito para policiais, forças armadas, seguranças devidamente registrados e freiras, mas armas brancas se tornaram o presente predileto em amigos secretos.

Hoje, 10 anos depois do início de tudo, outra mudanças, mais profundas, começam a ser sentidas. Boa parte das religiões se desestruturou com os zumbis vagando por aí. Fieis cobravam de seus líderes uma explicação. Onde, na Bíblia, na Torá ou no Corão, estava escrito que os zumbis apareceriam? Em lugar nenhum! No Vaticano, por exemplo, a falta de sangue frio dos cardeais facilitou a invasão zumbi. Há oito anos que ninguém ousa colocar os pés por lá.

Precisa dizer que a religião não está fazendo muita falta por aqui? Não, né?

Um projeto do Exército, anunciado recentemente pelo governo brasileiro, pretende transformar zumbis em soldados. Basicamente, o tal serviço militar obrigatório seria extinto. Zumbis seriam treinados usando técnicas recentes de adestramento de carne morta e usados como bucha de canhão no lugar dos humanos.

Há quem diga que um dia os zumbis desaparecerão. Ou serão extintos pelos caçadores, ou morrerão de fome, com todo o aparato de defesa armado em torno dos humanos. Ironicamente, a população hoje teme que isso aconteça. Em pesquisa recente, 85% das pessoas acham que a vida está melhor com os zumbis.

Não é exagero dizer que, hoje, nós amamos os zumbis!